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Ironman Wales 2019 – A prova

22 de novembro de 2019 Deixe um comentário

Desculpem. Acho que esse é o post mais longo de toda a minha vida, mas O Ironman Wales vale à pena…

O Ironman Wales ocorre na pequena cidade de Tenby, condado de Pembrokeshire, no País de Gales (Wales). Pra termos uma dimensão do que acontece, o condado de Pembrokeshire tem algo perto de 125.000 habitantes e Tenby, acreditem, tem cerca de 5.000 habitantes… É uma cidade muito pequena e maravilhosamente acolhedora.

Logo no dia seguinte da nossa chegada fui surpreendido por esse simpático cartaz:

Tenby love Ironman(woman)

Pra chegar até lá, o que aconteceu foi o seguinte: Pegamos um voo do Rio de Janeiro pra Lisboa. Depois de uma escala rapidinha, embarcamos pra Londres que, depois de umas 2h na fila da imigração, pegamos nosso carrinho alugado e encaramos mais ou menos umas 4h30min de estrada para chegar até Tenby. Somando tudo acho que deu umas 25h de viagem.

Chegamos lá no finalzinho da tarde de quinta, o que eu, particularmente, acho meio apertado caso tivéssemos algum contratempo pra resolver (extravio da bike, quebra de alguma coisa, sei lá…). Para nossa sorte, os prejuízos no trajeto foram poucos (sim, tivemos… O câmbio eletrônico da Lívia chegou sem funcionar mas era “só” um mau contato…) e logo que percebidos, consertados… Pelo menos era o que a gente achava… Rs

Conseguimos chegar ainda a tempo de pegar o kit e assim o fizemos, já no fechamento da expo naquele dia… Depois do kit na mão, aí sim fomos pro hotel… Nesta noite ainda tivemos disposição pra sair pra jantar, e talvez esse tenha sido o maior erro da viagem. Fomos num restaurante bacana (o primeiro que encontramos) pedimos os pratos, comemos super bem e saímos super felizes, porém, no dia seguinte veio o resultado: Lívia contraiu uma infecção alimentar e não tinha forças nem pra caminhar… Passou a manhã inteira deitada, só levantando pra ir ao banheiro. Por um momento achei que a prova dela tinha ficado comprometida. Na parte da tarde, fomos ao congresso técnico e ela simplesmente não conseguia ficar sentada na cadeira de tão fraca… No final do dia, mesmo que “meio forçada” ela conseguiu comer alguma coisa…

No sábado, apesar de ainda não estar 100%, ela já tinha melhorado bastante e saímos pra dar uma volta de bike pra ver se estava tudo funcionando corretamente. Neste momento descobrimos que o câmbio da Lívia não estava funcionando… Depois de muito futucar, verificamos que os fios tinham soltado durante a viagem. Foi só reconectá-los que tudo voltou a funcionar… Quando saímos pra girar de bike por aproximadamente 1h é que começamos a realmente descobrir os encantos de Wales…

Numa pequena volta de bike é possível encontrar uns castelos pelo caminho…

Aproveitamos também pra ir ver o local da tão famosa natação de Wales. A variação da maré aqui é impressionante. Na parte da manhã a faixa de areia diminui e aquela rocha ali no centro fica toda envolta de água. Na parte da tarde, o mar recuava tanto que se a natação fosse nesse horário, tenho certeza que não nadaríamos nem metade da distância… Rs. Nessa foto aí, a maré estava “no meio do caminho”…

Local da natação
Rampa de acesso à praia

Na parte da tarde, como de costume, fomos para o bike check-in deixar as bikes e sacolas na transição. A parte diferente dessa prova é que não temos acesso às sacolas na manhã da prova, somente à bike, portanto, quem gosta de deixar as sapatilhas já presas nos pedais, tem que lembrar de levá-las na manhã da prova. Eu acho esse negócio de não acessar as sacolas de manhã meio estressante mas, regras são regras…

Aliás, falando em regras, aqui (ou melhor, lá) em Wales a regra do littering (lixo) é bem rígida e clara: jogou lixo no chão fora das áreas demarcadas como área de descarte, DESCLASSIFICADO! Num primeiro momento, a regra até parece meio absurda mas quando te explicam os motivos durante o briefing e vc conhece a cidade, faz todo sentido. Tenby é uma cidade tão linda, limpa, organizada e nos acolhe com tanto carinho que não é justo a gente chegar lá, bagunçar tudo e ir embora.

No final do dia ainda comparecemos à Iron Prayer, uma “missa” que a organização da prova realiza numa Igreja Batista próximo à expo. Apesar de poucas pessoas, foi um momento bastante emocionante onde pudemos agradecer por estar ali e pedir ajuda para que tudo corresse bem no dia seguinte. Achei muito legal e recomendo pra quem for fazer a prova… Mesmo que não seja uma pessoa super religiosa… Eu tb não sou e gostei…

Race day

Despertador tocando às 4h da manhã… Aquela vontade de continuar dormindo… Toda manhã de prova é a mesma coisa: o despertador tocando e eu querendo continuar dormindo…

O hotel que ficamos era uma parada muito familiar… Bem legal… A própria dona do hotel faz o café da manhã para os hóspedes todos os dias, inclusive às 4h30min da madrugada do dia da prova… Sensacional!

Nosso hotel era muto perto da transição, consequentemente, muito longe da largada… Isso nos possibilitou ir cedinho checar a bike, colocar as sapatilhas no lugar, abastecer o aerodrink, ajeitar as comidas… Essas coisas de toda manhã de prova…

Saímos encasacados como podíamos naquela manhã fria, e depois de tudo arrumado nas bikes, voltamos pro hotel. Tivemos tantos problemas na preparação e, principalmente nos últimos dias que antecederam a prova que ali, juntos, eu e Lívia pegamos o panfleto da missa do dia anterior e fizemos uma oração que tinha no final, específica para o dia da prova. De novo nos emocionamos. Tudo o que queríamos era agradecer por estar ali…

Vestimos nossas roupas de borracha e fomos em direção à largada… O frio na barriga faz parte do uniforme nesse momento. Todos temos!!! A caminhada até a praia tinha um pouco mais de 1km e fomos caminhando devagar… Começamos a perceber algo diferente… Já tinha muita gente na rua… A gente ia passando e já tinha gente nos incentivando… Parecia meio estranho…

Entramos na rampa de descida para a praia e aqui vem uma peculiaridade de Wales: como a T1 é muito longe da praia (do final da natação até chegarmos na tenda de troca tem +/- 1,5km), é permitido que você deixe uma sacola (fornecida pela organização, obviamente) com um par de tênis para percorrer essa distância com mais conforto e segurança.

Deixamos nossas sacolas com o tênis pendurada nos nossos respectivos números na grade da rampa e fomos pra areia. É impressionante olhar lá de baixo e perceber a quantidade enorme de pessoas torcendo antes mesmo da largada… É de arrepiar.

Eu e Lívia procuramos nosso lugar de largada, de acordo com o nosso tempo previsto de natação, e ali ficamos aguardando o tão esperado momento.

Swim

A parte legal aqui é que seu tempo só começa a contar quando vc passa no pórtico de largada, ou seja, o que conta é o seu tempo líquido… Isso é bom pq quem nada um pouco mais devagar ou não tem muita segurança na natação, não precisa se preocupar em ir lá pra frente, dá pra largar com calma, fora da confusão, e evitar ser atropelado…

Depois do hino, quando soou a buzina, partimos em direção à água. Eu estava com muito medo da temperatura. Sou muito friorento e a água lá costuma ser muito fria. Por sorte, não estávamos num dia absurdo. Mesmo assim já tinha decidido nadar com um top de neoprene por baixo da roupa de borracha e um touca de neoprene, por baixo da touca da prova.

Metade da natação

Não sei o que aconteceu nesse dia mas fiz uma natação muito boa pros meus padrões. A única justificativa que consigo encontrar foi que fiquei o tempo todo pensando em sair da água o mais rápido possível pra não congelar. Deu certo… Fiz minha melhor natação de Ironman e não congelei, que era o principal objetivo dessa etapa… Rs

Percurso da natação

Como de costume, acabei nadando um pouquinho a mais do que o necessário (ok, muito mais… O Garmin mediu 4.400m). No final, todo mundo acabou nadando mais, até os prós falaram disso… Mas obviamente não era tão mais assim… Rs

Saí da água e fiquei surpreso quando olhei pra rampa e percebi a quantidade de sacolas que ainda estavam por ali, sinal de que eu realmente tinha feito uma natação melhor do que de costume…

Nadei em 1h14min29s… Ok, pra quem sabe nadar é um tempo bosta mas, acreditem, foi meu melhor tempo de atação de Iron. Com esse tempo saí da água na 143ª posição da categoria.

T1

Eu estava tão preocupado com a Lívia que antes de pegar minha sacola com o tênis, ainda dei uma olhadinha pra ver se a Lívia já tinha pego a dela e, graças a Deus, ela já tinha pego… Meu pensamento na hora foi: “Pelo menos nadar, ela conseguiu!!!”

Percurso da T1.

Soltei a parte de cima da roupa de borracha, peguei meu tênis, calcei e saí correndo pra tenda de troca. Não é agradável correr com a parte de baixo da roupa de borracha vestida. Fica a dica: tire toda a roupa de borracha pra correr até a tenda!

Outra coisa importante aqui é que o chão da área de transição é muito áspero, feito de umas pedrinhas… Machuca bastante os pés… Eu não suporto correr de sapatilha, portanto, sempre deixo presa na bike… Nessa prova, quem estava de sapatilha no pé se deu bem… Rs

Apesar de ser uma transição gigante, achei que nem demorei tanto assim mas é óbvio que sempre pode ser melhor…

Bike

Eu já sabia que o dia seria bem longo mas não sabia que seria tanto. Me inscrevi na prova ciente de que encararia 2.400m de ganho de elevação no ciclismo e tentei, de todas as maneiras, me preparar pra isso… Não deu muito certo mas hoje, praticamente 2 meses depois da prova, acho que já identifiquei os equívocos… Faz parte do processo de aprendizagem… Vamos à prova:

Uma vez sobre a bike, comecei a imprimir o ritmo que achava que sustentaria até o final dos 180k. Obviamente me enganei…

O início do percurso engana bastante. A gente acha que vai ser tranquilo… Mas não vai!

Logo no começo, talvez com um pouco menos de 30km de prova, me deparei com o primeiro acidente: uma moça estava deitada completamente imóvel recebendo os primeiros socorros ali mesmo. Imaginei que pudesse ser grave mas não tinha nada que pudesse fazer pra ajudar. (Não sei se acontece com vocês, mas isso me abala um pouco… Não chega a afetar a prova, mas a gente começa a viajar nos pensamentos e perde um pouco o foco…)

Um pouco mais à frente, por volta dos 40km foi onde realmente comecei a desanimar. E sim, é muito cedo pra desanimar numa prova tão longa. O lance foi que uma abelha desgovernada (coitada da bichinha) se chocou contra o meu capacete e depois dessa pancada inicial, bateu na minha coxa, perto da virilha (sim, por cima da bermuda) e fez um estrago enorme. Comecei a sentir tanta dor que preferi parar pra ver o que tinha acontecido. Os restos mortais da abelha “kamikaze” estavam lá, presos na minha bermuda e na minha coxa tinha um buraco sangrando de +/- meio centímetro de diâmetro. Fiquei meio preocupado mas, mesmo doendo bastante, não tinha muito o que fazer. Era continuar na prova pra ver o que acontecia… (Essa abelha me deixou com um roxo de quase 10cm na coxa por uns 15 dias e uma pequena marca que dura até hoje e acho que permanecerá pra sempre… Rs)

Aqui cabe uma recomendação importante: NUNCA PEDALEM SEM ÓCULOS (ou capacete com viseira)! Um treco desses se pega no olho, já era…

Ok, seguimos na prova: o final da prova é realmente muito duro com várias subidas curtas mas muuito íngremes que começam a moer as pernas e isso eu não imaginava no meu treinamento. A altura máxima que chegamos nessa prova não chega a 200m, ou seja, nem é tanta coisa, o problema é que não tem nenhum plano. Ou sobe ou desce o tempo todo…

Altimetria do ciclismo

Com 110km completamos a primeira volta do percurso do ciclismo e aí veio o segundo baque do desânimo: a parte do percurso que repete, os últimos 70km são justamente os mais difíceis… Confesso que quando passei ali e me dei conta disso, desanimei muito. Eu já estava tão devagar que realmente pensei em voltar pro hotel. Ainda bem que não fiz isso. Eu não tinha nenhum motivo real pra abandonar. Ia ser um arrependimento absurdo…

Percurso do ciclismo

Fui pra segunda volta e ainda vi mais uns 3 acidentes nesse trecho. Aparentemente menos graves do que o primeiro, mas nunca se sabe. Eu mesmo quase passei reto em uma curva bem fechada depois de uma descida. O cansaço começa a bater e a gente começa a perder os reflexos… Ainda bem que consegui, mesmo travando a roda traseira e derrapando por uns bons metros, me livrar da queda…

Uma das subidinhas do percurso…

Depois do susto, só me restava trazer de volta a bike pra T2 e ver o que restavam das minhas pernas pra correr…

A parte legal disso foi que, quando eu estava quase chegando na T2, vi a Lívia correndo livre, leve e solta… Me deu outro ânimo!!!

E essa torcida??? Realmente nunca vi igual… Impressionante!!!

Ok. Falei, falei e não disse o tempo do pedal. 7h30min cravados. Uma eternidade! Lamentável!!! Nem sei o que falar… Jamais cogitei ficar tanto tempo assim pedalando nessa prova. Ainda bem que sempre superdimensiono a quantidade de comida que preciso levar… Rs

Pra finalizar, essa belezura de pedal me fez ser jogado para a 237ª posição na faixa etária. Foi o 255º tempo de pedal entre os 376 atletas da minha categoria. Não gostei nada. Tô furioso e isso vai ter que melhorar…

T2

Na hora de descer da bike, apesar de odiar isso, permaneci com as sapatilhas calcadas. Me sinto ridículo correndo com isso no pé mas, com as pedras que tive que pisar na T1, achei que seria melhor assim e considero que acertei…

Não fiz uma boa transição. Quem se preocupa em ser rápido depois de 7h30min pedalando???

Peguei minhas coisas com calma enquanto repensava minha estratégia de corrida. Não sei o que minhas pernas iam fazer depois desse tempo todo pedalando…

Run

Comecei a corrida com o único propósito de correr direto até o primeiro posto de hidratação/alimentação. Lá eu decidiria a próxima meta. Assim eu fiz. Embora tenham muitas subidas, consegui permanecer correndo mesmo nelas… Cheguei no posto de hidratação, bebi e comi enquanto caminhava por 1min e voltaria a correr… Funcionou. Esse 1min de caminhada parece mágico.

Início da corrida.

Daí pra frente fui nessa estratégia o tempo todo: correndo entre os postos e caminhando 1min neles enquanto me alimentava. Uma maravilha…

O percurso lá são 4 voltas iguais de 10km e pouco. Cada uma com um total de 500m de ganho de elevação, ou seja, também não é uma corrida fácil mas é tanta gente torcendo durante os 43km de corrida (sim, o percurso é maior) que dá até uma inibida em quem quer dar aquela caminhada marota… Rs

Altimetria da corrida.

Mais ou menos na metade da corrida comecei a sentir frio e coloquei as luvas que já tinha pego na T2. Sempre sinto frio nas mãos e colocar uma luva me transforma em outra pessoa… Comecei a me sentir um pouco melhor e na última volta fiz toda sem caminhar nem nos postos de hidratação…

Na minha última volta o dia anoiteceu mas, nesse momento, eu estava tão animado com a proximidade do fim que nem isso me abateu. Quando entrei no tapete de chegada, nem sei muito bem o motivo, mas comecei a chorar igual a uma criança. Aliás, lembrando de tudo o que passamos nos últimos dias que antecederam a prova, sei sim o que me fez chorar…

Percurso da corrida

Minha corrida, apesar de lenta, foi muito constante e acabei fazendo a 78ª melhor corrida da categoria (com lentas 4h21min14s). Essa corrida me puxou pra 166ª colocação dos 376 da faixa etária… Não é bom mas pelo menos é na primeira metade da galera… Rs

Chegada

A chegada dessa prova foi tão especial que resolvi separar da parte da corrida. Cruzei o pórtico com 13h19min14s. Bem acima pra quem achava que era possível fazer perto de 12h30min mas ok, cheguei… Provavelmente planejei mal mesmo o meu tempo…

Chegada.

Mas e a Lívia??? Lembram dela??? Pois é, ela já tinha chegado, obviamente. Mas eu não tinha noção de como ela estava. Bem? Mal? Feliz? Triste? Sei lá…

Peguei minha medalha e fui passando direto por todo mundo pra tentar encontrar a Lívia. Quando cheguei na tenda de troca, ela estava na porta me esperando. Ela tinha acabado de saber o resultado dela com uma outra atleta que estava lá no final tb mas com o celular (a Lívia estava sem) e me contou que venceu a faixa etária… Ela foi a campeã da F35-39 em uma das provas mais difíceis do circuito… Sensacional!!!

Quando ela me contou, nos abraçamos e ficamos ali chorando juntos por um bom tempo. Aquele foi o final de semana mais louco que já passei. Do tudo perdido ao tudo ganho. Depois de tudo o que passamos, a vaga de Kona era dela. Ninguém mais poderia tirar… Foi bom demais poder participar disso. Me emociono só de lembrar…

Festa da meia noite

Voltamos pro hotel, tomamos banho e saímos pra comer alguma coisa e participar da festa de encerramento da prova, esperando e dando força pros últimos atletas do dia!!! Dá pra ver a felicidade no nosso rosto???

Premiação

No dia seguinte fomos pra premiação, rolagem de vagas e passear por Tenby.

Premiação.
Rolagem de vagas pra Kona.
I faced the dragon!!!

E como está escrito na camisa de finisher: “I faced the dragon!

Repetindo o que está escrito na primeira frase desse post:

O Ironman Wales vale à pena!

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